sábado, 31 de maio de 2008

Sinal Fechado 1969 - 2008

Na última semana procurava alguma música que desvendasse o mundo em que vivemos. Por pura casualidade, a canção que mais se aproximou foi Sinal Fechado, de Paulinho da Viola.

Melhor ainda, a música foi gravada em 1969, ou seja, há praticamente 40 anos. Alguns trechos são extremamente interessantes no que diz respeito ao futuro, a correria nossa do dia-a-dia, a busca incessante do tempo perdido, de um sono tranqüilo.

A letra, na verdade, é um diálogo entre dois amigos, cada um no seu carro, parados em frente a um “sinal fechado”.

Naquela época, as pessoas já viviam uma vida atarefada, com milhões de compromissos e, principalmente, reclamavam da falta de tempo para cuidar do lado pessoal e afetivo. Já prometiam retornar uma ligação, sabe-se lá quando. Marcavam encontros que não seriam realizados.

Havia muito mais com o que se preocupar. A cabeça andava cheia, ver um amigo ou alguém especial era tarefa das mais difíceis. Parar para bater um papo na mesa de um bar era complicadíssimo. E olha que falamos de 1969.

Se antigamente, sem internet, trânsito, celular, e-mail, televisão etc., as pessoas já lamentavam a vida agitada e vazia que viviam, o que não dizer dos dias de hoje?

Afinal de contas, temos tudo. Todos os meios de comunicação possíveis e imagináveis e, mesmo assim, damos inúmeras desculpas para as pessoas que nos cobram algum tipo de contato. Acho que já nascemos com esse pensamento, sabiam?

Procuramos ocupar tanto a nossa mente com tantas coisas que estão à nossa volta, que não percebemos a vida mecânica que vivemos. O filme Tempos modernos, de Charles Chaplin, talvez seja a obra perfeita para o nosso tempo. Mesmo tendo sido gravado em 1936.

Acordamos, trabalhamos, estudamos, “ficamos”, comemos, bebemos, dormimos. Mas, parece que nos final das contas o corpo fez tudo sozinho. Coube a nós apenas a tarefa de ligar o botão do “piloto automático”. Pronto. Agora deixa a vida me levar.

É necessário parar e pensar sobre isso. Talvez passar um fim de semana com o computador desligado. Sair e deixar o celular em casa. Esquecer o saldo negativo da conta. Não ligar, não mandar e-mail para os seus amigos e, sim, ir até eles.

Por melhor que sejam os meios de comunicação de hoje, nada, em tempo algum, irá superar o sorriso e o abraço verdadeiro. O calor humano é fundamental para continuarmos sendo Homo sapiens.

domingo, 18 de maio de 2008

Ditadura - achados e perdidos

Recentemente em uma das aulas de Técnicas, sons e imagens, o professor Armando Prazeres, nos brindou com uma relíquia. Um DVD chamado PHONO 73, uma coletânea com imagens de vários artistas e suas obras censuradas na época da ditadura, em 1973.

Todas as vezes que assisto ao DVD me pergunto: - De onde saía tanta criatividade para escrever letras tão subjetivas?

Ao relacionar o DVD com o livro, Meu querido Vlado – A história de Vladimir Herzog, do jornalista Paulo Markun, a viagem torna-se ainda mais interessante.

Imaginar como viviam essas pessoas, artistas, jornalistas é um exercício complicado. Eles simplesmente não podiam fazer nada. A explicação dada pelo professor sobre a música, Não chores mais, de Gilberto Gil, nos transporta para uma realidade impensada nos dias de hoje.

Assistir ao vídeo proibido da canção, Cálice, de Chico Buarque, sem dúvida nos deixa ainda mais atônitos. Na apresentação, Chico tem seu microfone cortado para que não consiga cantar a música. Gil, mal pronuncia a letra. Parece balbuciar alguma coisa, mas sem dizer qualquer palavra.

Tempos difíceis aqueles. Haja criatividade.

Paulo Markun, nos leva aos bastidores da ditadura. Anos em que os jornais só circulavam após aprovação do “censor”. Todas as palavras deviam ser medidas, pensadas e repensadas antes de irem para o papel.

As atrocidades cometidas após o AI-5 (Ato Institucional 5), em 1968, que conferia ao Governo Federal poderes ditatoriais, são relatadas de forma muito clara pelo jornalista. Muitas pessoas foram presas e mortas naqueles anos, sem qualquer justificativa plausível para tal.

Enfim, tanto o DVD, quanto o livro são itens indispensáveis para qualquer pessoa. Ainda mais se estas são estudantes de jornalismo.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Crônica - Crise existencial

- Alô...

- Alô, Marcos? Boa noite, tudo bem?

- Tudo e você?

- Bem também.

- O que manda?

- Olha, estou preocupada com o meu carro. Ele anda agindo de forma estranha.

- Como assim?

- Não sei. Semana passada, em plena Av. Paulista, ele parou, simplesmente não queria andar.

- Que coisa!

- No sábado, estava na Marginal Tietê a 80km por hora, de repente, ele engasgou e não passava do 30.

- Estranho.

- No domingo foi pior ainda. Bem perto de uma bifurcação tentei virar à direita, mas ele permaneceu em linha reta e parou em cima das faixas.

- Ahã.

- E hoje, o filho da mãe não pegou de jeito nenhum.

- E o que você fez? Chamou o mecânico?

- Chamei. Ele foi até em casa e disse que o problema não era mecânico.

- Não?

- Não. Disse que o problema é emocional. Stress. Trânsito, buzina, esse pára e anda toda hora, subida, descida, multa, motoqueiros. Segundo ele, o meu carro está com crise existencial.

- Sério? E agora, o que você pretende fazer?

- O que eu pretendo fazer não, né? O que eu fiz. Marquei uma consulta com o Dr. Jackson para a próxima quarta-feira.

terça-feira, 13 de maio de 2008

O inferno ficou para trás...

Em 08 de dezembro de 2002, a cidade de São Paulo assistiu ao vivo pela televisão a implosão do maior presídio do país, o Carandiru. Palco de inúmeras rebeliões e repressões. Na mais famosa delas, 111 presos foram assassinados, em 02 de outubro de 1992.

No local foi construído o Parque da Juventude, com uma área total de 240 mil m². As lembranças do antigo presídio ficaram para trás. “O que restou do antigo Carandiru foram algumas muralhas que hoje servem como ponto turístico para visitantes, além dois pavilhões, o quatro e o sete, que foram totalmente reformados e hoje abrigam estudantes”, diz Paulo Pavan, administrador do complexo.

O Parque foi construído em três fases. A primeira delas, o complexo de quadras poliesportivas, pista de skate e patins, numa área de 120 mil m². O espaço pode ser utilizado até as duas horas da manhã. Durante o dia, professores e profissionais da área de educação física dão aulas gratuitas de futebol, basquete, tênis e vôlei.

O segundo espaço é constituído de ruas e alamedas para caminhadas. Possui bosques, árvores frutíferas e ornamentais, além de conservar uma área de mata atlântica de 16 mil m². É a chamada área central, a mais bonita do Parque, com muito verde e um visual maravilhoso.

A terceira fase e com caráter mais social é formada por uma estrutura que fornece à população programas culturais, diversos cursos gratuitos, concertos e exposições.

Os prédios reformados viraram salas de aulas, onde funcionam as ETC´s, Escolas Técnicas do Estado de São Paulo, administradas pela Fundação Paula Souza e, também, uma unidade do Acessa São Paulo, um programa do governo estadual de acesso à internet, que conta hoje com 110 computadores.

A segurança é um dos pontos positivos do local. “Aqui não permitimos o consumo de álcool e maconha. Qualquer pessoa flagrada nessa situação é automaticamente convidada a se retirar do parque”, afirma o Pavan.

De fato, andando pelas alamedas e quadras, não percebemos qualquer tipo de movimentação de pessoas suspeitas, a sensação é de muita tranqüilidade.

A proximidade com o Cingapura da Zacchi Narchi não atrapalha em nada a movimentação no parque. Pessoas de diferentes níveis culturais convivem em harmonia. “Existe o respeito entre os freqüentadores, não há espaço para discriminação, com isso todos se beneficiam”, diz o administrador.

Segundo Pavan, uma pesquisa realizada recentemente mostra que mais de 50% da população do parque tem nível universitário. “É uma mescla que dá certo”, confirma.
Interessante notar a limpeza do local. A cada 20 ou 30 metros nos deparamos com cestos de lixos, todos com placas indicando quais os tipos de detritos devem sem jogados em cada um deles, isto faz com que o lugar esteja sempre limpo.

Segurança e limpeza em um local amplo e com muita vegetação é um convite ao lazer e ao descanso. Podemos ver pessoas tirando cochilos em plena luz do dia, andando vagarosamente, lendo um bom livro ou mesmo batendo um papo.

O número de visitantes aumenta a cada ano. “Em 2006, foram 650 mil, em 2007, 1.300 mil. Para 2008, esperamos chegar a 2 milhões de visitantes”, acredita Pavan.

domingo, 11 de maio de 2008

Corinthiano: orgulhoso sim, feliz não...

Este é um texto direcionado apenas aos corinthianos, que como eu, começaram a sofrer com o início da Série B.

Estamos bem na Copa do Brasil, prestes a classificarmo-nos para as semifinais, mas este é um outro campeonato, outra disputa, outros times e outra realidade, sim.

A Série B nada tem de charmoso, glamoroso ou qualquer outro adjetivo que a torne interessante ou convincente para qualquer torcedor do Corinthians. E não adianta dizer que começamos bem, que o Pacaembu recebeu 35 mil pessoas ontem, que a torcida cantou, vibrou etc.

Nenhum corinthiano pode ou está feliz com tal situação. Até o ano passado, nos interessava os jogos de sábado e domingo com São Paulo, Santos, Flamengo entre outros. Agora, será necessário ficar de olho na sexta-feira, é mole?

Avai e ABC jogam em Florianópolis. América de Natal enfrentando o Gama, em Natal. Fala sério: dá prá ser feliz tendo que acompanhar esses jogos? Claro que não.

Palmeiras, Botafogo, Atlético Mineiro e Grêmio já passaram por tal situação. Encheram estádios, fizeram festa, inventaram novas canções de apoio, mas, tenho certeza que nenhuma delas pretende cair novamente.

Os jogos da Série B são feios, com chutões, inúmeras faltas e passes errados, sem contar a cera que os times visitantes fazem para garantir qualquer pontinho. As partidas lembram muito o Desafio ao Galo, torneio disputado na década de 80, no campo de várzea do CMTC Clube.

Se o Corinthians vai subir? Claro que vai. Tem obrigação de fazê-lo. Serão 7 meses de gozação dos adversários, sofrimento, angústia e festa nas arquibancadas. O torcedor continuará fazendo sua parte, por isso ele carrega o nome de FIEL.

Sempre teremos orgulho de bater no peito e gritar: “Eu nunca vou te abandonar porque eu te amo”.

Mas feliz com o time na segunda divisão, não. Daí já é demais.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O vexame de Ronaldo

Ronaldo Luiz Nazário de Lima, 31 anos, bi-campeão mundial de futebol, eleito três vezes o melhor jogador do mundo, com uma fortuna avaliada em US$ 250 milhões, errou e errou feio.

Abatido e visivelmente fora de forma, Ronaldo concedeu entrevista ao Fantástico, da Rede Globo, no último domingo e admitiu a falha. “Estou com vergonha do que fiz, mesmo que não fossem travestis. Eu errei e sei que isso irá manchar minha vida pessoal para sempre”, admitiu o jogador.

É claro que a entrevista foi dirigida e que o jogador foi orientado em todas as suas respostas para não se comprometer ainda mais.

O travesti Andréia Albertine confirmou no programa A tarde é sua, da RedeTV, que o “programa” de fato aconteceu e que o craque sabia que ele, bem como seus amigos, não eram mulheres. O travesti afirmou também que saiu do quarto para comprar drogas a pedido de Ronaldo. Disse ainda que o jogador, já na delegacia, ofereceu a quantia de R$ 50 mil para que Andréia “calasse a boca” e não tornasse público o ocorrido.

Já o jogador disse que ao saber que não tinha levado para o quarto três mulheres e sim três homens, desistiu do programa. Que por se tratar de um atleta de alto nível jamais consumiu drogas e que na verdade, ele foi vítima de extorsão. Segundo ele, Andréia foi quem pediu R$ 50 mil em troca do silêncio.

Outro fato intrigante nesse caso foi a aparição de uma suposta vítima de Salvador, no Jornal Nacional, que diz ter caído no mesmo golpe, aplicado pelos mesmos travestis. O homem que não quis se identificar contou exatamente a mesma história relatada por Ronaldo. Isso é que é assessoria de imprensa.

Sites e jornais do país inteiro publicam matérias imparciais a respeito do caso. Em todas elas acusam o travesti Andréia de furto, de extorsão, de formação de quadrilha. O delegado do caso, Carlos Augusto Nogueira, diz que a versão de Ronaldo é mais confiável.

Alguém pode me dizer por quê? Só porque ele é o “Ronaldo”? Famoso? Milionário? Não pode errar? Não é humano como todos os outros?

Assim como a convulsão sofrida pelo jogador no dia da final da Copa de 98, jamais saberemos o que realmente aconteceu durante a madrugada naquele motel. Tanto a imprensa, quanto os delegados e promotores farão de tudo para denegrir a imagem do travesti e fazer com que a sociedade apóie o craque.

De todos os erros cometidos por Ronaldo até aqui, este sem dúvida foi o pior. O craque estava noivo, vem se recuperando de uma cirurgia, tem um contrato com o Milan, da Itália, que vence no mês de junho, possui contratos de publicidades que geram receitas anuais em torno de US$ 30 milhões e, além disso, é Embaixador da Unicef.

O craque que sempre foi sinônimo de superação dentro de campo, mas que sempre teve uma vida pessoal conturbada pelos seus relacionamentos tem pela frente um grande desafio.

Tentar sair por cima de uma situação vexatória e comprometedora. Reconstruir sua imagem de bom moço e, principalmente, convencer seu time, patrocinadores e Unicef de que ainda é um Fenômeno como jogador e um excelente garoto propaganda.