terça-feira, 3 de junho de 2008

Meu Pai? 1932 - 1995

Está aí um assunto que eu pouco falo e gosto menos ainda de falar. Mas ouvi de alguém, um dia, que era preciso me livrar deste fantasma.

Por isso estou aqui. A história é mais ou menos assim. Não convivi com meu pai, não troquei mais do que poucas frases ao longo de dois anos ou menos de contato.

O que apurei desde sua morte, em 19 de maio de 1995, é que levava uma vida completamente alheia à família. Infelizmente era alcoólatra. Não fazia questão de cuidar da casa e tinha pouco respeito pela minha mãe.

Conversando com meus irmãos e familiares próximos descobri ainda que muitas vezes deixou a desejar como pai. Meus irmãos, principalmente os mais velhos, dizem que a coisa não era bem assim. E tentam recontar a história.

Mas o que sempre ficou prá mim foi a versão da minha mãe. Que, segundo ela, sofreu na pele as conseqüências de um casamento arranjado, cerimônia acontecida lá no final dos anos 50.

Crises incalculáveis de alcoolismo, a falta de participação na criação dos filhos, muitas vezes o uso da violência. Enfim, ele saiu de casa no terceiro mês de gestação da minha mãe, início de 1974. O feto, no caso, era o narrador da história.

Cresci sem ele. Fui ajudado por muitos outros pais de aluguel. Seu Renato, Seu Jair e Seu Mané, que Deus os tenha. Luiz, Franco, Nelson (meu padrinho) e Seu Jacó, foram as pessoas que cuidaram de mim de alguma forma.

Ajudaram na formação do meu caráter, da minha personalidade, da minha educação. Evitaram, com conselhos, que eu seguisse por caminhos tortos. Foram, em outras palavras, o pai que eu nunca tive. Minha mãe é um caso à parte. Sua vida será contada em outro momento.

Conheci meu pai aos 12 anos de idade. Em uma foto tirada no dia do casamento vi um homem bonito, forte, com ar de superioridade. Ao vê-lo pessoalmente a decepção foi muito grande.
Surrado pelo álcool e pela vida estava à minha frente uma pessoa desconhecida, desinteressante, estranha, que a mim, não representava absolutamente nada.

Talvez porque acreditava que sua ausência tenha prejudicado a minha vida de alguma forma. Talvez pelo fato de não ter recebido, nunca, em momento algum, uma palavra, uma notícia, ou mesmo qualquer tipo de preocupação de sua parte.

Lembro-me de pouca coisa do dia de sua morte. Naquela época curtia o nascimento do meu filho, que tinha 40 dias de vida. Compareci ao velório, mas não ao enterro. Cisma minha, não tenho a menor vontade de conhecer cemitério.

Naquele dia, meus irmãos choravam, estavam tristes. Eu olhava ao redor e não conseguia, ou melhor, não queria entender os motivos. Com 20 anos, minha mágoa era maior do que a angústia deles. Egoísmo? Talvez.

Passados 13 anos, não sei se devo me arrepender dos meus sentimentos, da minha passividade com a sua morte. O que sei e o que aprendi ao longo da vida foi ensinado por pessoas maravilhosas, dignas do meu respeito. Pais de amigos meus que resolveram, em épocas distintas, me acolherem como filho.

Como todas as pessoas que se vão, procuro acreditar que meu pai esteja em um bom lugar lá em cima. Ao lado de Deus e, quem sabe, arrependido da vida que levou. Da falta que fez ou não fez para nossa família. Principalmente a mim.

Este é um pedaço triste da minha história que ficará marcado para sempre. Ao escrever estas palavras espero esquecer um pouco do pai que eu não tive.

9 comentários:

Anônimo disse...

Valeu garoto!!!

Sua sinceridade é tudo apesar dos pesares você está sensibilizando e emocionando com seus textos.
Sorria pois viver já é uma grande vitória se seu pai não fez a parte dele paciência pois você está aqui brilhando.

abraço

Luizinho coruja

DRIX disse...

Marcos... me identifico muito com a sua história... o seu depoimento me faz refletir sobre a minha própria história de vida... embora o meu pai não tenha tido o problema do alcolismo, também foi uma figura ausente... e quando se fez presente, sempre o fez da maneira mais rude e menos amorosa possível... também evito o assunto e até mesmo mencionar o nome... se isso me tornou uma pessoa mais dura para a vida eu não sei... só sei que minha mãe foi minha heroína, o exemplo, que sempre se desdobrou para cumprir o seu papel e o dele... com total louvor...

Poliana disse...

Linda história, e mais comum do que se imagina!
Eu entendo perfeitamente, tenho uma história parecida..
Vou copiar a frase do seu amigo Luiz, acho que ela significa muito:
" Sorria pois viver já é uma grande vitória se seu pai não fez a parte dele paciência pois você está aqui brilhando."

Fica com Deus

Beijoos
Polii

Juliana Petroni disse...

Amigo entende a sua história, que se assemelha a de milhares em todo mundo. Saiba que muitos passam pela vida e não aproveitam a oportunidade que lhes foi dada. Aprendemos muito também com os erros dos outros e isso é o que realmente importa!!! Ser pai é algo além, as palavras falham ao transcrever tal ato, e sei que vc está cumprindo seu papel amorosamente.
Ao lembrar-se de seu pai, peça muita luz para ele, onde quer q ele estaje receberá tal auxílio, pois essa vida é passageira, e estamso em processo de evolução.
Amo vc bjossssss =)

Susanna Martins disse...

Creio que muita gente passa por isso... emocionante!

[desculpa a minha ausência, mas essas duas últimas semanas foram corridas, estou voltando aos poucos.... abraços]

Alexandre disse...

Boa tarde !!!

Atenção não se pede , recebe .
Talvez a única liberdade verdadeira que podemos compartilhar é o direito de expressar nossos sentimentos , parece muito facíl, porém poucos tem coragem ou envergonham-se. Você não perdeu e não pediu um pai ausente, mas ele sim a oportunidade de estar ao seu lado , ouvir as palavras de gratidão e reconhecimento pelas pessoas que estiveram presentes .
Abraços amigo ,

Alexandre Vono

João Luis disse...

Sensacional seu texto Marcão. Essa é uma das formas que temos de exorcizar nossos demônios; escrevendo e compartilhando com as pessoas próximas. Me identifiquei com a sua história porque também cresci sem meu pai (desde os oito anos), mas, por motivos diferentes. Ele tinha o mal de Chagas e nos deixou aos 49 anos, sem nenhuma palavra de despedida. Só eu sei a falta que ele me fez...
Mas, isso é outra história, que poderá (e deverá) ser contada em breve. Quem sabe no meu blog...
Abraços

M!§§ $imPåttÿa ツ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
M!§§ $imPåttÿa ツ disse...

Pois é... coisas tristes tbm servem para nos edificar como seres humanos.

Esse texto me tocou profundamente pela semelhança com a minha história, e percebo que independentemente de tudo, escolhemos não seguir o ex. e sermos melhores.

Nossas escolhas determinam o que somos e não podemos transferir essa responsabilidade a mais ninguém.

Obrigada por mais este momento de iluminação.

Bjkz.